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LEVINA G. MUNIZ - O SACERDÓCIO DE UMA VIDA  (Wilde G. Aquino) escrito em terça 01 julho 2008 19:20

Biografia escrita por Wilde G. Aquino e Marcus Vinícius Vitor de Aquino, e que foi uma das vencedoras do Concurso de Biografias, realizado pela AABB de Conselheiro Pena em 2000.

 

LEVINA GONÇALVES MUNIZ

O Sacerdócio de uma vida

 

Nascimento:               12 de novembro de 1901

Filiação:                      José Gonçalves e Maria Castora de Matos

Naturalidade: São José Evangelista - Minas Gerais

 

São José dos Paulistas

Povoação pertencente à freguesia de Nossa Senhora da Pena do Rio Vermelho, que pertencia à Sabinóplois. Anteriormente, São José dos Paulistas chamava-se São Sebastião do Correntes, de onde os primeiros habitantes partiram para as terras de São João do Suaçuí, que viria a ser, em agosto de 1911, o município de São João Evangelista, de cuja paróquia foi primeiro vigário o Padre Joaquim Antonio dos Santos Lacerda.

 

Casamento

Levina casou-se com Antônio Gomes Muniz em 21 de janeiro de 1914, no Cartório do Arraial de Figueira, sendo Juiz de Paz o senhor Quintiliano de Souza Costa.

 

Antonio Gomes Muniz

Filho de Manoel Ribeiro Muniz e de D. Antonia Gomes Muniz, era um modesto arreeiro e agricultor, de costumes simples, homem serio, responsável, religioso e sem vícios.

 

Levina

Órfã de pai e mãe, a menina Levina foi criada, desde seus primeiros dias, pela avó materna.

Trazendo nas veias o caudal sanguíneo da honradez e da dignidade, miscigenação das famílias Gonçalves e Matos, recebeu da avó os primeiros cuidados típicos da época: religiosidade, normas de respeito e uma cega obediência.

Muito nova, sob os cuidados da avó-já tão velhinha, Levina, como as outras meninas de seu lugar e de seu tempo, vivia uma vida normal: os afazeres da casa modesta; os folguedos da infância; as rezas na igrejinha de Nossa Senhora Mãe dos Homens, e... ministrando primeiros ensinamentos.

A palavra "casamento", surgiu na vida de Levina quando ela era ainda muito nova..

Tinha ela, apenas 13 anos de idade, mas já uma mulher em formação, quando soube do interesse do solteirão Antônio Muniz em desposá-la. Ele, então, contava com 43 anos de idade.

As senhoras do povoado, em conversas com a avó de Levina, exaltavam as qualidades morais do maduro pretendente:"a diferença de idade não pode justificar a recusa se Levina em aceitar a proposta de casamento do solitário homem!"-diziam as velhas senhoras.

Levina, na verdade, nem conhecia bem o seu pretendente. E, o que se deu por fim, foi que, o assédio das senhoras do arraial, mais a insistente argumentação das mocinhas de sua idade, levaram Levina a consultar o Padre Antonio dos Santos sobre o que deveria decidir. O vigário, conhecedor das ovelhas d seu rebanho cristão, sabia que a menina Levina já podia enfrentar as responsabilidades de um casamento, embora sua diminuta idade. O amadurecimento moral da criança-mulher era por demais conhecido da gente do arraial de São João do Suaçui.

Assim, na carta-resposta, escrita num aerograma datado do ano de 1912, Padre Antonio dos Santos enalteceu-lhe os dotes morais; fez-lhe comentários sobre a personalidade que ela possuía, considerando-a pronta a ser uma perfeita dona de casa e se referiu, ainda na missiva, aos valores inegáveis de integridade moral dos quais era depositário o idoso Antonio Gomes Muniz.

Eis que, cumprindo seu destino, Levina viu-se-desde a infância, pode-se dizer-, colocada de frente às lutas desiguais da vida.

Casada, Levina, dona de conhecimentos gerais colhidos nas escolas de seu tempo e lapidados esses, nas leituras sadias às quais se dedicava nas horas de descanso que os afazeres caseiros lhe permitiam, compreendeu a necessidade que tinha de ajudar seu bravo marido no sustento da casa.

Afinal, eram pobres, bem pobres, mas ...felizes.

São João Evangelista ficara para trás. Moravam agora no arraial de Chonin.

Antonio Muniz, que conhecia o sistema e forma em que fora criada sua esposa-menina, sabia que dentre as prendas domésticas de Levina, incluía-se sua aptidão para a costura, pois, desde menininha, aprendera com a avó os segredos da arte, ajudando nos acabamentos das roupas da casa.

Dos chuleios, alinhavos, feitura de casas e às pregações dos botões, ela chegara ao manuseio da pequena máquina manual, cuja manivela muitas vezes acionou para fazer as roupas que sua avó e ela própria vestiam.

Entretanto, ao deixar a casa onde fora criada, por força do casamento, lá deixou a pequena máquina.

Muniz sentiu que Levina podia continuar vestindo suas próprias confecções, vestindo também os filhos pequenos e ele próprio. Decidiu, então, o homem pobre e lutador, buscar uma ajuda a mais de sua mulher. Comprou, com grandes sacrifícios, uma máquina de costura de pedal, à qual Levina logo se acostumou, a partir do que, vestiu todos os filhos, gastando o tempo que lhe deixavam as aulas, os planos d ensino de tantas crianças, as correções das lições nos caderninhos infantis.

Era, também, o aproveitamento do tempo que lhe sobrava dos afazeres da cozinha, da roupa e das vasilhas caseiras, lavadas nas águas dos rios e ribeirões; a arrumação da casa, da sala de aulas; as intermináveis horas consumidas à beira dos leitos dos filhos pequenos, quando algum mal infantil os acometia, cujas pequenas doenças não podiam ser evitadas por meios de uma cuidadosa prevenção, que a valente mãe tinha quase como uma religião.

Pois era, em tais furtivas e reduzidas frações de tempo, que Levina tomava posição em seu banco tosco, feito de retalhos de madeiras e assumia sua versão de fabricante de roupas, peças modestas, confeccionadas com os mais humildes tecidos.

Mas, tais horas consumidas no ofício de costureira, que geralmente aconteciam nos finais de semana ou durante as noites, à luz de lamparinas e lampiões, não desviaram jamais o pensamento da mestra nata.

Sua atenção voltava sempre para os caminhos da educação, do ensino. Sempre sentiu-se capaz de ensinar o que aprendera.

A vida simples da menina Levina, da extraordinária mulher, seguia seu destino.

Convivendo em meio às famílias modestas do lugarejo, Levina notou que podia ajudar na alfabetização das crianças da redondeza. Montou uma pequena e modestíssima sala de aulas e arrebanhou os primeiros alunos.

Começava, definitivamente ali, no povoado de Chonin, o sacerdócio educacional da Mestra Levina, cujos caminhos trilhados, desde então, pelas montanhas, pelos vales e pelos campos da educação, transformariam sua vida num dos mais belos e imortais marcos da história da educação primária em todo o Estado de Minas Gerais.

A odisséia de Levina, pelos mares da educação, ofereceu-lhe, águas bravias, tempestades tenebrosas, com vagalhões imensos açoitando furiosamente sua embarcação. Cada ano letivo da carreira magistral de Levina, era uma aventura nova. Reconfortantes e felizes, entretanto, eram as chegadas a cada porto do destino. Era então que desembarcavam os passageiros da aventura de quatro anos. Um novo grupo, este constituído de passageiros de primeira viagem, tomava a embarcação para uma nova aventura. No leme do barco, a mesma autoridade firme e confiável da comandante Levina.

Os políticos, dirigentes poderosos de Figueira do Rio Doce, captavam, dos comentários que corriam os meios da sociedade formada pelos lugarejos que se iam formando na região, a eficiência de uma professorinha do arraial de Chonin. Os alunos daquela modesta escolinha - diziam - se destacavam pela dedicação aos estudos e pelo apego carinhoso à pequena mestra.

De Chonin, daquele esquecido aldeiamento de pioneiros, emanava um brilho esplendoroso na área de educação.

A modesta, e até então desconhecida mocinha, tinha, para sobrepujar os requintes dourados e faiscantes dos anéis conquistados nos Institutos de Educação pelas moças da elite, a sensibilidade nata de uma educadora inigualável, que, sábiamente, estendia com carinho incomparável as suas mãos morenas aos pequenos analfabetos, conduzindo-os pelos caminhos do saber, desvendando-lhes os mistérios dos números e transformando em maravilhas os significados das palavras de nosso idioma.

Os homens do poder regional decidiram convocar a jovem Levina.

Apresentando-se aos dirigentes de comunidade, Levina ficou sabendo ter sido escolhida para lecionar na Escola de Cachoeira Escura, povoado que clamava pela educação das crianças locais.

Pra lá seguiu a professorinha, para enfrentar novos desafios, para distribuir com outros pequeninos analfabetos a sua divina sabedoria.

Era, naquela primeira partida do "cais" de Chonin, que o "barco" de Levina se lançava aos "mares" da alfabetização.

De cachoeira Escura, passou por Baguarí, chegando à Cachoeirinha. Naquela vila, Levina perdeu seu companheiro de tantas lutas. Antonio Gomes Muniz, o marido fiel, o amigo inseparável, chegara ao fim de sua modesta mas honorável e digna vida de trabalhador incansável e de respeitável chefe de família.

Levina, nas terras de Cachoeirinha,estava quase só. Antonio Muniz legara-lhe, no entanto, o que lhe fora podido legar: seu sangue. E este, estava representado nos seis filhos menores: Maria, Geraldo,Rita, Joaquim, Rute e Antonio.

Um novo abalo o destino provocaria na vida de Levina.

Alguns casos de meningite surgiram na região, ainda bravia, do Vale do Rio Doce. Os tentáculos da terrível febre, de conseqüências ainda hoje mortais, se estendiam pela redondeza, onde outros diversos males endêmicos grassavam, originados da insalubridade da região, ainda dotada d matas virgens, úmidas e inóspitas.

A pequena Rute foi acometida da terrível febre. As medicações utilizadas, às quais lançou mãos a sofrida mãe, não impediram que a morte implacável levasse a menina. Estava, uma vez mais, diminuída a família da professorinha.

 

 

 

 

Era, naqueles tempos, o ano de 1930.

A destruição das lavouras de café e a queima do produto estocado, por ordens do governo, visavam melhorar o produto nacional, que, apesar das super-safras, do excesso d produção, não encontravam compradores.

Tal justificativa, entretanto, serviu apenas para levantar a voz do povo nas ruas, já inconformado com as vergonhosas fraudes eleitorais que levaram Washington Luis ao poder.

Um movimento nacional eclodiu em favor de Getúlio Vargas. Tumultuou-se o país numa revolução triste, vencida pela facção de Vargas, com a conseqüente deposição do presidente eleito.

Milicianos e civis de ambos os lados se espalharam pelo Brasil, em cinflitos e confrontos armados.

À estação da Estrada de Ferro Vitória a Minas de Cachoeirinha, chegaram combatentes, como outros saíam, num vai e vem febril. E, dentre os que chegaram, surgiu, num dos grupos, Argemiro Aquino, segundo  tenente das forças do governo que apoiavam Getúlio.

Findo o conflito, Aquino decidiu ficar no Vale do Rio Doce, deixando de vez sua terra natal, Bom Jesus do Itabapoana, no estado do Rio de Janeiro, lugar onde perdera a esposa, Arsênia Paranhos e onde deixara, sob os cuidados de tias, a filha única de seu primeiro casamento.

Os fios do destino iam sendo tecidos, caprichosamente.

 

("foto")

No pátio da estação ferroviária de Cachoeirinha (hoje Tumiritinga), alguns revolucionários posaram para esta foto historica. Aquino aparece assinalando, com um sinal sobre o rosto.

 

Professora Levina ia dando seqüência à sua vida de mestra das primeira letras, agora, introduzindo no universo da cultura, as crianças de Cachoeirinha.

Aquino que, tendo fixado residência em Cachoeirinha e onde desenvolvia os ofícios de fotógrafo e barbeiro, teve muita facilidade em relacionar-se com a população do lugar. E, foi nas conversas com os novos amigos da terra, nos contatos mantidos em seu salão-ateliê que, perguntando pela viúva, que ele via passar diariamente cruzando as ruas poeirentas da Vila, sobraçando pilhas de cadernos e acompanhada sempre de um bando de crianças, que o ex-revolucionário, também viúvo, ficou sabendo: a ágil mulher, a mulata séria, a misteriosa e reservada professora, era a Senhora Levina Gonçalves Muniz, personalidade incorporada à vida severa da Vila, mãe de cinco filhos menores, sofrida e brava lutadora na criação da família que lhe ficara com a morte do velho Muniz.

"Somos dois viúvos (pensou Aquino); vou juntar minha solidão à solidão dessa mulher!"

Casaram-se.

O destino continuava a tecer os fios da vida de Levina.

 

 

2 de Fevereiro de 1932, segunda-feira.

Chovia fino, naquele dia.

Wilson Salgueiro, o agente, fizera badalar o pequeno sino de bronze da estaçãozinha de Lajão, anunciando que o trem de passageiros da E.F.V.M. já havia deixado a Barra do Cuieté e se aproximava da Vila, sinal que servia também para que os viajantes se posicionassem para o embarque.

De fato, poucos minutos depois, o trem apitava roucamente ao cruzar o pontilhão sobre o Rio João Pinto, no centro da Vila.

Rodando sobre os trilhos de estreita bitola, cruzava o largo da povoação, onde existiam algumas casas comerciais, como a Casa Barros, o Armazém do Zé Nogueira, uma farmácia, a loja de tecidos e chapéus do português Ferreira, o bar do Guedinho e muita lama acumulada nas margens da linha férrea.

Avançando ainda mais, a locomotiva à vapor cruzou com sues vagões um outro largo, de onde se via, no pé do morro à direita, a casa colonial do abastado Jô Raminho e de cuja varanda, em mangas de camisa e calças curtas, acenava freneticamente o moleque José.

O comboio ferroviário, por fim, atingiu o largo da estação. As rodas da locomotiva e dos vagões gemeram nos trilhos estreitos em direção à parada, em diminuída velocidade, enquanto, apitando na sua rouquidão cansada, a maquina ia soltando fumaça e fagulhas de brasa da caldeira, agora de porta fechada.

De uma das janelas da maquina, olhava o foguista e da outra, o maquinista, indiferentes ambos à movimentação das pessoas curiosas ali postadas.

Tanto o maquinista, quanto o foguista, usavam uniformes cáqui, amarelados, sobressaindo dos paletós das "fardas", os botões dourados; nas cabeças, os garbosos quepes ferroviários.

Todas as pessoas ali presentes, tanto na plataforma da estação, quanto nas janelas e portas das casas das imediações, da residência Antonio Amaro ou do Hotel Renascença, viram descer aquela família que parecia estar chegando para ficar.

O homem desceu primeiro. Era de pequena-média estatura, mas tinha um físico comum: nem gordo, nem magro. Era claro, usava terno cinza e gravata sob um guarda-pó branco, no qual se notavam as pontilhações de pequenos orifícios feitas pelas pequenas brasas saídas da chaminé da locomotiva. Na cabeça, o homem trazia um chapéu. Os entendidos diriam: "o chapéu é um Ramenzoni".

O homem, tendo deixado o vagão de segunda classe em que viajara, passou às mãos de um carregador a pequena mala retangular, de cor indefinida, e estendeu os braços para o menino moreno que desceu até o chão. Era o menor dos cinco que desceriam antecedendo a mulher morena, bem morena, de uns 30 anos de idade, que deixou o vagão por ultimo, ajudada pelo homem claro.

No largo da estação, dentre as pessoas ali espalhadas, estava o farmacêutico Edmundo Bitencourt, o dentista Clarismundo Morais Pinheiro, os comerciantes Honório de Castro, Joaquim Santos e o português Ferreira. Também, naquele local, o Ataulpho Barreiros, D. Honorina Vieira (esta, possivelmente esperando novos hóspedes para seu hotel). Por ali também presentes o José Bichara, o velho José Mazzoni, mais algumas senhoras, uma meia dúzia de meninas e um indefinido número de rapazes e meninos.

As pessoas presentes à chegada do trem, não estavam, na verdade, aguardando o desembarque de nenhuma celebridade. Era, isto sim, a gente do lugar desfrutando o grande passatempo daquela sociedade: assistir de perto as chegadas e partidas dos trens de passageiros.

Mas, dos presentes àquele desembarque, um rapazinho deixou apressadamente as imediações da estação. Era o garoto Hamilton, filho do comerciante Honório de Castro, que corria a levar a nova ao Coronel Carlomanho:

-A nova professora chegou!

 

 

Aquino, anteriormente, viera ao Lajão e alugara uma casa onde passaria a residir. Um casarão antigo, na rua que pouco tempo depois receberia o nome do presidente: Getúlio Vargas.

Precisamente à altura do atual nº 1744 daquela rua, passou a residir a famili da professora Levina.

D. Cristina Epifânia dos Santos, que até então era a professora principal da Vila, embora sua ocupação prioritária se concentrasse na sua "Casa de Pasto", local onde se faziam refeições e se podia tomar café, leite e comer-se quitandas variadas, preparava-se para mudar-se do lugarejo. E, mudou-se logo, D. Cristina.

Na sala frontal do casarão da rua Getúlio Vargas, à qual chegava-se após subir-se dois degraus de madeira, feito de duas longas tabuas toscas, a nova professora da Vila montou sua escola.

Era, o estabelecimento de ensino, subordinado ao governo do município de Itanhomi, que, recebendo os alunos encontrados dos tempos de Cristina Epifânia, abria suas portas a outras crianças e jovens do lugar.

 

("foto")

Acima, o casarão da rua Getúlio Vargas, residência da professora Levina, local onde funcionava sua escola. Nesta foto, aparece a professora e uma de suas turmas de alunos. Possivelmente comemorava-se o dia 7 de setembro, pois vêm-se os pequenos alunos uniformizados e perfilados para uma ocasião especial.

 

Contava, a Vila de Lajão, naquele tempo, com outro dedicado educador das primeiras letras: o lendário Professor Messias, em cuja escolinha, montada na própria casinhola onde morava, os cálculos da tabuada e as vogais da fina cartilha, .eram ensinados rítmica e musicalmente e onde os "delitos" inocentes dos pequenos alunos eram penalizados com a aterrorizada palmatória.

Levina Gonçalves Muniz, naqueles idos de 30, integrava a safra de educadores que cobravam a aplicação de seus alunos com castigos terríveis, penalidades assustadoras, que forçava um aprendizado adquirido à peso do medo. Ela não usava a palmatória, é bem verdade. Contudo, faziam parte de seus instrumentos de "tortura", os grãos de milho e areia, sobre os quais os faltosos tinham que se ajoelhar por alguns segundos. Outro instrumento de castigo usado por Levina, era a sua fina régua de pinho, algumas vezes quebrada nas cabeças dos insubordinados.

 

 

No ano de 1932, nasceu o primeiro filho de Levina e Argemiro. Era uma menina, a Odete, que formaria com os filhos de Antonio Muniz, a meia dúzia de dependentes da professora.

No inicio do ano de 1933, alguns lideres comunitários do lugarejo, dado o número crescente de alunos do curso primário, viram a necessidade que urgia de dotar-se a Vila de um espaço maior para as salas de aulas da criançada da professora.

Reunidos na casa do Coronel Carlomanho, decidiu-se iniciar um movimento popular comunitário, com vistas a se localizar a escola em um prédio próprio, já que, até então, a escola funcionava na residência de Levina.

A Vila já contava com outra professora, também das primeiras letras. Era a senhora D. Ana Xavier.

Mas, como se fazia necessário um espaço maior para a escola, deu-se inicio ao movimento comunitário para levantamento de fundos.

Os primeiros a contribuir foram: José Carlomanho, com a importância de 50$000 (cinqüenta mil réis); Luiz Azavedo e Edmundo Bitencourt, contribuíram com 20$000 cada um e o Coronel Francisco dos Anjos subscreveu 10$000 na lista. Estava ali, na sala de Carlomanho, iniciado o movimento pelas "Escolas Reunidas".

A nova "Casa da Cultura" da Vila de Lajão - as Escolas Reunidas, passou a funcionar no nº 38 da rua Cesário Alvim, hoje a rua José Bichara.

No ano de 1934, nasceu o segundo filho de Levina e Argemiro, batizado com o nome de Wilde, homenagem do pai ao amigo Wilde Motta, escrivão no município de Itanhomí.

A família crescia e as dificuldades da professora Levina agravar-se-iam com a doença do marido nos anos seguintes. No entanto, os obstáculos que a vida atirava à frente dos passos de Levina Muniz não a impediam de continuar sua missão de sacerdotisa: continuou caminhando sobre os espinho das penúrias a vida, a distribuir, no seu dom divino, as primeiras luzes da educação.

O estado de saúde de Aquino se agravara, estava tuberculoso. Um grande drama na vida de Levina.

"Como manter o marido doente em meio a sete filhos, dentre os quais menores?" - perguntava-se Levina.

Recorreu, em desespero, ao presidente da Sociedade São Vicente de Paulo, confraria que Aquino ajudara a criar e da qual fora secretario. Era presidente da entidade o senhor José de Oliveira Fonseca.

"Não posso, Levina. O Aquino sofre de doença contagiosa. Transmitiria o mal  a outros a quem recorreremos."

Levina, embora o terrível drama familiar, não faltava aos seus compromissos com a escola. Continuava pontual.

Afinal, continuar era preciso. E ela sabia...

Cesário de Barros, Edmundo Bitencourt e outros amigos da familias ajudaram Levina naqueles tempos tormentosos.

Altamyr Nunes de Barros, filho de Cesário e compadre de Levina e Argemiro, pois que batizara Odete, a primeira filha do casal, decidiu levar Aquino para Belo Horizonte, cidade que, na época, era considerada de clima excelente para a recuperação de doentes tísicos. Infelizmente, o mal de Aquino havia se agravado muito, na demora em buscar maiores recursos médicos. E, no dia 14 de abril de 1938 às 13 horas, Aquino era sepultado no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte, sob o nº 966.

Estava novamente viúva a dedicada e sofrida professora.

 

 

Com o advento da emancipação política do Lajão, que passou a ser Conselheiro Pena, por força do Decreto-Lei nº 148, de 17 de dezembro de 1938, uma mudança seria registrada na vida profissional de Levina Gonçalves Muniz. Modificações introduzidas na área de Educação no Estado de Minas Gerais, promovidas pelo Presidente do Estado, Dr. Benedito Valadares Ribeiro, deram oportunidade a que a professora Levina deixasse o âmbito municipal e passasse a integrar os quadros do magistério estadual.

Novas mestras haviam surgido no novo município e dentre elas, celebrizaram-se Judith Alves Diamantino, Amália Pontes, Maria da Natividade, Dolores Silva, Léa Campanharo e outras que surgiram em nossas Escolas Reunidas.

Levina continuava sua obra maior: educar.

No palco do Cine Teatro Aparecida, nossa biografada encenou diversas peças teatrais infantis, oportunidades nas quais promovia o surgimento de talentos para as artes cênicas.

Mantendo sempre às mãos livros de peças infantis, de enredos inocente, recrutava atores nas salas de aula, confiando-lhes pequenas interpretações em dramas amadores; outros declamavam poemas de nossa antologia e cantores e instrumentistas executavam números musicais.

Se tais apresentações, realizadas com a grande e inestimável colaboração do saudoso Argemiro Teixeira, proprietário do cinema, divertindo a cidade e levantando rendas para a Caixa Escolar, maiores reflexos provocavam, beneficamente, na cultura de nossa gente.

Foi naquela época que, pertencendo à confraria do Circulo Esotérico "Tatwa - Jesus Cristo é a Luz do Mundo", cuja sede funcionava no sobradinho nº 1778 da avenida Getúlio Vargas, e, sendo também católica praticamente e devota de N. S. Aparecida, que nossa lendária e saudosa professora fez versos dedicados à padroeira do Brasil, transformando as estrofes num hino que seus alunos cantavam com a musica do Maestro Francisco Manoel da Silva, parceiro de Osório Duque Estrada no Hino Nacional.

Em toda a década de 40, Conselheiro Pena viu seus filhos menores povoando as salas de aula da casa nº 38 da Rua Cesário Alvim

Das turmas de Levina Muniz, muitos dos alunos, ainda vivos, ostentam hoje posições sociais as mais elevadas, cultivando em suas memórias, os tempos felizes de aprendizado das primeiras lições, relembrando, com saudades, os velhos tempos das ruas barrentas do Lajão antigo e do Conselheiro Pena jovem, quando caminhavam pelas nossas ruas ao encontro das lições fantásticas da exemplar operária do ensino.

No ano de 1951, era inaugurado o Grupo Escolar "Maria Guilhermina Pena", na rua Orlando Vaz. Era o dia 19 de janeiro. Na lembrança de todos, ficavam as "tela" imaginárias dos tempos da rua Cesário Alvim. Conselheiro Pena entrava na era da modernização escolar.

Levina contava quase com 40 anos de serviço público, quando recebeu o benefício de sua aposentadoria. Chegava o descanso da guerreira.

Os tempos passaram. Os filhos casavam-se e tinham seus filhos. Os netos também s casavam e vinham os bisnetos. Levina estava realizada, deixando em sua passagem marcas eternas de uma integridade moral inigualável, vendo cumprida integral e totalmente a grande missão lepa qual viera à vida.

Do distante ano de 1901 ao triste dia 3 de janeiro de 1988, Minas  Gerais conheceu, no campo do ensino, da honradez, da responsabilidade e amor familiar, uma das maiores figuras humanas de toda sua história.

No jazigo perpétuo no. 104, rua 10, do Cemitério da Saudade, em Belo Horizonte, repousa, na Santa Paz de Deus, uma notável mulher:

 

LEVINA GONÇALVES MUNIZ

 

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