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A DAMA DA JANELA  (Wilde G. Aquino) escrito em terça 01 julho 2008 19:24

Conto, escrito por Wilde G. Aquino, que retrata uma época de sonhos e devaneios, numa história romântica, triste e apaixonada.

 

A DAMA DA JANELA

 

Há tempos eu vinha observando um certo rapaz que se postava num dos bancos do nosso jardim, em obstinada vigília. Procurei, dum banco próximo, seguir o caminho dos seus olhares e verifiquei que os olhos do rapaz se concentravam, às vezes com certa timidez, numa das janelas de um prédio ali existente.

A busca do moço era ansiosa, quase aflita. Me parecia, que a cada vez que seus olhos baixavam da direção da janela, uma nuvem de decepção descia junto, já que, a janela, embora aberta, continuava deserta.

Estava sozinho em meu banco, observando o rapaz, quando alguém sentou-se ao meu lado. Era o Jarbas Barateza, que vindo dos lados do bar do Honorito, me falou ter acabado de se encontrar com o Aníbal. Nossa conversa continuou despreocupada, jogada fora, em assuntos triviais, sem muita importância.

Resolvi mudar de assunto. Perguntei ao Jarbas:

- Quem é esse rapaz naquele banco ali? Não me lembro saber quem seja.

- Há! O tolo do Tobias, que veio de novo!

- Quem é esse Tobias afinal? - perguntei.

- Esse camarada - me disse o Jarbas - mora em Cuieté Velho. Não estou bem certo a que família de lá ele pertence. Mas, segundo me disseram, é gente boa, bem querido da gente daquelas bandas.

- Mas - eu voltei a falar - esse cara ta me parecendo estranho. Já lá se vão alguns bons minutos que daqui eu observo a maneira como ele procede de forma bastante estranha. Olha pra aquela janela insistentemente, mas, a gente nota, que de uma maneira misteriosa, dissimulada. Parece querer ver alguém ali sem, contudo, desejar que os outros observem isso. Não entendo.

- Ta certo. Você não sabe. Eu vou contar pra você o que sei eu dessa historia. Vamos despistar algum tempo, andando por ai. Daqui a pouco a gente volta pra este banco.

O Jarbas levantou-se do banco e eu o acompanhei. Caminhamos pelo interior do jardim e fomos até a frente da Igreja. A historia lhe fora contada pelo Nehemias Cordeiro, velho morador daqueles altos do Cuieté.

Tobias vinha de uma família de proprietários de terras naquelas bandas, para onde haviam mudado há alguns poucos anos. Tobias chegara ali rapazinho ainda. A moça, que se chama Eliza, pertencia a outra família, esta já tradicional naquelas serras.

Gente conceituada naquela sociedade regional, as duas famílias, vizinhas nas terras que possuíam, tinham, entre si, um tratamento fraterno. Os filhos dos casais se misturavam nos folguedos infanto-juvenis, libertos nas brincadeiras nos campos, livres nas corridas despreocupadas pelos ribeirões e cachoeiras das redondezas, à cata de borboletas azuis, como diria o poeta.

Foi na adolescência de Eliza e Tobias que a atração revestida de amizade, plantada pelos patriarcas, se transformou num afeto mais profundo entre os dois. Tobias, já um rapaz. Eliza, uma linda mulher-menina, cujo corpo ia tomando as formas que a perfeição feminina pode alcançar.

Tobias e Eliza, nos passeios pelo campo e nas festinhas promovidas na Vila, já procuravam estar a sós, longe dos irmãos pequenos, que saltitavam noutros cantos. Já seguravam-se as mãos em momentos fugazes, furtivamente, às vistas dos pais, que, depositando ilimitada confiança nos filhos, davam-lhes total liberdade para se locomoverem como quisessem.

E foi num desses fugidios instantes de solidão a dois que Tobias encheu-se de coragem para dizer, quase num sussurro: "Eliza, eu te amo!".

Assustada no primeiro instante, Eliza liberou de seus lábios rosados o mais sincero e feliz de todos os sorrisos. Afinal, ele se adiantara...

Namorando às escondidas, em encontros inocentes, nos quais crepitavam as mais ardentes chamas de um puro amor juvenil, Tobias e Eliza tiverem tempos de incomparável felicidade.

Os tempos passaram. A vida girou, trazendo para a família de Eliza outros ângulos. Novos prismas se ofereceram nos novos caminhos trilhados.

Num certo dia Eliza partiu, levada pela família que se mudou para Galiléia. Ali, já convivendo em um novo ambiente social, Eliza conheceu novas amizades, outras mocinhas, outros rapazes.

E foi num baile beneficente, realizado na Escola Estadual Levindo Valadares,

que Eliza conheceu, numa roda de jovens amigos, o Basílio Campos, um bom sujeito, filho de um fazendeiro de Sapucaia do Norte.

                Elisa dançou algumas vezes com o novo amigo. Sentou-se à mesa do rapaz, onde outras moças e rapazes conversavam animadamente sobre o desenrolar do baile, que era animado por um bom conjunto trazido de Valadares.

                 Tobias, então na memória da bela Eliza, era apenas um delicioso vulto trazido da infância, dos bons tempos vividos nas cachoeiras e nos campos de Cuieté Velho; uma doce personagem fantástica dos tempos de fins de semana à beira do Rio Caratinga, junto às famílias, em reuniões alegres com peixadas preparadas com o produto de pescas alegres e festiva. Era ele, o lembrado Tobias, apenas aquele rapazinho       tímido que um dia, com pureza, atravessara etéreamente os caminhos de Eliza.

                 Basílio, insinuou-se na vida e Eliza, como o homem que a teria para a eternidade. E, casaram-se, criaram filhos, solidificaram um lar.

                 Mas, quis o destino pregar uma peça aos nossos protagonistas.

                 Foi numa viagem de volta de Mantena para Galiléia que Basílio, dirigindo seu automóvel, tendo ao lado sua esposa Eliza e dois filhos, numa curva qualquer da estrada de terra, sofreu um capotamento. O carro tombou três vezes, ribanceira abaixo. Não houve vítimas fatais no triste acidente. Somente Eliza, presa às ferragens do veículo, que ficara bastante danificado, sofreu maiores conseqüências: levada ao Hospital São Vicente de Paulo, na cidade de Governador Valadares, teve, dada a seriedade dos ferimentos, das fraturas irreparáveis, a necessidade de sofrer a mais triste de todas as cirurgias: amputaram-lhe as duas pernas.

Achei triste, muito triste, a historia contada pelo Jarbas. Mas, ainda movido pela curiosidade, perguntei ao meu narrador:

- E o Tobias, Jarbas? Como se sentiu ele nessa historia toda?

- Ah! Meu caro! Aquele que está ali sentado naquele banco é o que restou do Tobias alegre das primaveras do Cuieté Velho. Desde que ele soube, por um amigo, la do Cuieté, que Eliza estava morando em Conselheiro Pena, procurou localizá-la. Descobriu-a aí, neste prédio em frente. Ela também já identificou o apaixonado rapaz, embora sempre oculto entre as folhas do jardim, porque, humilhado, sentido e acovardado, ele se esconde dela. Permanece sempre num desses bancos de onde pode vê-la, emoldurada na janela. Ele sabe que sua musa continua bela, embora só consiga chegar à sua moldura, até ali levada por sua cadeira de rodas.

   Pobre Tobias! Pobre Eliza! A vida lhes reservou esses terríveis dias.

   Em uma dose e outra de uma bebida forte, tomada nos balcões do bar do Zé Preto, o pobre Tobias vai tentando, diuturnamente, fazer viver a sua adorada pequena Eliza na beleza deslumbrante da Dama da Janela.

 

 

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Todos os comentários desse artigo:
A DAMA DA JANELA

  • mailto beto

    Dom 06 Jul 2008 12:42

    Lindo este texto é digno de uma peça teatral pelos palcos da pura e singela pureza do amor, um abraço forte em seu pai Wilde , nosso eterno poeta e seresteiro DEUS o abençoe. emocionante narração.valeu mesmo

  • mailtoloide

    Ter 24 Jun 2008 01:30

    conheço os personagens dessa historia me diverti com a historia